12.3.05

Paternidade


Ele pôs brancos a cantar música de negros e dessa fusão racial nasceria o rock’n’roll. Como género, é impulsionador de grande parte da produção musical da segunda metade do séc. XX, mas é também uma forma de existência, uma vivência cultural e social. Sam Phillips foi quem o paternizou.

O nome teima em continuar um estranho nos ouvidos de muitos admiradores das raízes do rock. Como patrão da lendária Sun Records, dela não fez apenas mais uma nas heranças de “blues” e “hillbilly”. Lançou carreiras incontornáveis, provocou terramotos na pacata indústria musical (directamente ou não) e deu mesmo um passo decisivo para a afirmação das terras do tio Sam como centro cultural mundial. Sem ele o rock’n’roll teria sido diferente.
Sam Phillips começou desde cedo a trabalhar numa rádio, como locutor, em Memphis. Passava gospel, blues, R&B, música essencialmente conotada com os negros, o que lhe veio a provocar alguns problemas. É então que, para pôr um ponto final nas acusações das mais diversas frentes, decide arranjar uns pequenos estúdios (Sun Studios) e fazer a música de negros que realmente apreciava, mas interpretada por brancos. A bola armadilhada estava prestes a explodir e a rebolar em catadupa para a casa dos americanos através da televisão, veículo então emergente na glorificação de estrelas, e nomes como Elvis Presley, Roy Orbison, Johnny Cash, Jerry Lee Lewis, Carl Perkins, B.B. King, Howlin’ Wolf ou Rufus Thomas eram ícones em ascensão. Um deles, o maior da música popular até ao presente.
Elvis Presley entrou num sábado de Julho de 1953 nos Sun Studios para gravar algumas baladas para o aniversário da mãe, e Sam Phillips percebeu que tinha ali pedra em bruto. Na Sun Records acaba por gravar apenas cinco singles (entre eles o mítico “Mystery Train”), e Phillips percebe que não seria possível prendê-lo numa editora com tão parcas capacidades. Por 35 mil dólares (uma quantia ainda discutida por estudiosos da época) o seu contrato é vendido à RCA, que fica também com os direitos dos cinco singles editados até então.
Mesmo tendo sido a Sun Records a lançá-lo, Elvis estava destinado a ter sucesso em 1956, já na RCA. O primeiro êxito comercial alcançado pela editora foi conseguido por Carl Perkins com o seu "Blue Suede Shoes". Antes disso, Phillips havia lançado “Rocket 88”, disco de Jackie Brenston, considerado obra charneira no rock’n’roll (género do qual muitos conjecturam como primeiro álbum). Com o dinheiro amealhado com o contrato milionário do Elvis, foi possível apostar numa nova fornada de artistas, o que não poupou a editora a perdas tremendas. As de Johnny Cash, Carl Perkins ou Roy Orbison são apenas os exemplos mais cabais. Phillips começava a ser incapaz de segurar estrelas, mas o facto de as ter lançado dava-lhe uma credibilidade como poucos teriam.
Para a história, ficaria também Memphis. Ainda hoje existe a tradicional rua da música Beale Street, onde o B.B. King’s Blues Bar é rei e senhor. A casa de Elvis Presley, em Graceland, é a segunda mais visitada nos EUA, a seguir à Casa Branca, e em seu redor podemos encontrar um sem número de produtos e lojas relacionados com o cantor. As instalações originais dos míticos Sun Studios são visitadas por mais de 700 mil pessoas por ano.
Diz-se que as lendas são coisas que não são e que, a dado momento, passam a ser, sem que ninguém se aperceba disso imediatamente. A de Sam Phillips, porém, já o é há algum tempo, e faz parte das verdades absolutas da história da música popular.

Adaptação de artigo origalmente publicado no Bodyspace.

24.7.04

Cronologia – de 1877 a 1959

1. 1877

Os anos 50 ainda estavam distantes, mas foi neste ano que se deu uma invenção capital: a do fonógrafo. Thomas Edison (1847-1931) desenhou e produziu em New Jersey este aparelho, que consistia num cone em cujo vértice era colocada uma membrana ou diafragma com uma agulha no centro e um cilindro metálico revestido de estanho ligado a uma manivela que, accionada manualmente, fazia o cilindro girar, com o propósito de gravar ou reproduzir um som. O fonógrafo permitiu que os artistas aumentassem exponencialmente a audiência e a descendência musical.

23.7.04

Rock’n’roll – origem e desenvolvimento (II)

Muitas das canções do início da década reflectiam genuinamente a disposição pós-Segunda Guerral Mundial e pessoas como Pat Boone, Rosemay Clooney e Perry Como dominavam os tops. Os negros começavam a ganhar popularidade, mas não vendiam tanto como os brancos contemporâneos. O sucesso do rock’n’roll chegaria, de resto, quando Sam Phillips conseguiu colocar brancos a cantar música de negros, libertando-o assim de muitas das etiquetas que eram à partida coladas. Do norte vinha agora o doo-wop, que consistia em grupos vocais que tinham vocalistas com diferentes papéis a solo dentro do grupo e que interagiam simultaneamente a determinada altura. Base do R&B e praticada essencialmente pelos jovens negros e italianos, Drifters e Dominos são dois bons representantes. Do sul chegava o rockabilly, que consistia num cruzamento entre o country, western e o rhtymn & blues. Era essencialmente dos brancos. O primeiro Elvis Presley (dos singles da Sun) e Bill Haley são, de 1953 a 1955, os melhores exemplos. Em Chicago os irmãos Phil e Leonard Chess pegaram no melhor do blues negro e começaram a gravá-lo na sua editora Chess. Por ali passariam Muddy Waters e Chuck Berry.
Não existe consenso quanto ao apontar de um disco como o primeiro do rock’n’roll. As primeiras manifestações discográficas de Jackie Brenston, Lloyd Price, Hank Ballard, Big Joe Turner, e Fats Domino têm grandes reivindicadores. Contudo, o disco mais frequentemente apontado como o primeiro da era rock’n’roll é o clássico “Rock Around the Clock” de Bill Haley & His Comets, que demorou quase dois anos a atingir o número 1, mas quando o fez arrebatou tudo à sua volta. Um pouco menos cotado, mas certamente igualmente ou mais importante será “Heartbreak Hotel”, de Elvis Presley. Nenhum outro disco antes deste teve tanto impacto aos olhos do mundo. Buddy Holly chegou mesmo a dizer: “Without Elvis, none of us could have made it”.

21.7.04

Hoje, há 54 anos, ...


... Joe Liggins alcançava o número 1 da tabela de R&B e o número 30 da tabela Pop com a música “Pink Champagne”. Tratou-se de um dos seus maiores êxitos, talvez com par apenas em “The Honeydripper”, de 1945. Com base no jazz e no blues, era uma música muito característica do R&B de então, com voz e saxofones a mergulharam em braçadas comuns e paralelas.

20.7.04

Rock’n’roll – origem e desenvolvimento (I)

Ninguém se juntou numa cave escura e poeirenta de Memphis e planeou o rock’n’roll, nem ninguém sabia muito bem o que andava a fazer – todos sabiam apenas que os miúdos o compravam insofridamente. Três acordes, uma batida de fundo forte e insistente, com uma melodia agradável e cantarolável, foi quanto bastou para fazer deste novo mundo musical uma revolução gigantesca que varreu, de diferentes formas e por diferentes meios, a América de então.
Se é verdade que, como muitas vezes é dito, o rock’n’roll é o resultado do cruzamento do rhythm & blues e a música country e western, também há que ter em atenção que gospel, swing, country, jazz, folk, R&B e de um modo geral a pop mais tradicional, poderiam igualmente ser colocadas numa mesma batedeira estilística, misturadas muito bem e dali resultar uma canção baseada no blues com uma estrutura rápida, dançável e atractiva. Alan Freed, um DJ de Cleveland apaixonado pelo R&B dos negros que se mudou para New York em 1954 e aí começou a organizar espectáculos, deu o mote e o nome: “Rock and Roll”. Soava bem, propagou-se e é hoje um dos termos mais conhecidos dentro de toda a música. Goste-se ou não.
No início do século XX era levada de África uma tradição oral musical forte de histórias, trabalho e diversão, que foi reforçada e modificada sob condições muito duras. A segregação racial que se verificava nos EUA provocava atritos e guerras frequentes entre as diversas partes. No Sul os brancos tinham as suas próprias convenções musicais: canções quase sempre religiosas e profundamente devotas, a maior parte das vezes cantadas nas igrejas. Deixar que os negros os devastassem com uma nova sonoridade? Nem pensar... Mas os afro-americanos foram absorvendo ambas as músicas e a entrada em cena do jazz possibilitou a criação de bandas maiores e com elementos rítmicos mais fortes. Em 1950 existiam nos EUA cerca de 15 milhões de negros, que continuavam a lutar por mais e melhores oportunidades. Os primeiros deles conseguiam finalmente alcançar os estudos universitários... (continua)

19.7.04

Contextualização histórica e notas (II)


Não foi porém apenas a sociedade que mudou desde então. O próprio suporte da música (que caminha cada vez na direcção do não-suporte) foi-se alterando ao longo dos tempos. Na década de 50 o clássico doze polegadas (diâmetro standard LP) ainda conhecia poucos adeptos, e os álbuns enquanto tal apenas continham alguns hits com outros temas que apenas serviam para aproveitar o espaço disponível em disco. Vingavam mais os quarenta e cinco rotações (single), mas também uns raros setenta e oito rotações, de nomes como Elvis Presley, Chuck Berry e Bo Diddley. É verdade que muitos álbuns de Elvis Presley venderam em larga escala, mas tal só aconteceu porque a RCA não conseguia fabricar tantos singles quantos os que a procura pretendia e, impacientes e desejosas, as pessoas compravam os que à sua frente primeiro surgissem nas lojas. Pode contudo falar-se de uma época de canções apenas. Cada artista pensava apenas e exclusivamente no próximo single, nunca em função de um álbum coerente ou mesmo conceptual. Essa prática começou a ser mais habitual apenas por volta de 1966, com a British Invansion e bandas como Beatles e Kinks. Quando se tem nas mãos um vinil editado na década de 50 não é só um pouco de material velho que se está a sentir, mas também uma peça de história única – que vai para além da música e passa pela cultura, política e economia, porque a história do rock’n’roll abraça todos estes factores.
Cabe também aos “anos 50” o apontar do surgimento do teledisco. Estudos genéticos profundamente detalhados parecem indicar com alguma certeza a Elvis Presley e mais concretamente à sequência da prisão estilizada, no filme “Jailhouse Rock” (1957), o pequeno vídeo que ia contra a lógica ortodoxa do género e avançou no sentido daquilo a que hoje se designa por videoclip. A criação regular aconteceria apenas com a década de 80 e a entrada em cena da MTV, mas foi então que o que era algo puramente lúdico com a matéria musical começou a afirmar-se como regra.O legado deixado à sociedade em geral, e à música em particular, pelo efeito dos chamados “anos 50” musicais é por isso farto. É naquela década que se encontra o maior ícone da história da música popular. Mais do que Beatles, Rolling Stones ou Michael Jackson, Elvis Presley assumiu-se com o disco homónimo de estreia como um dos mais populares cantores de sempre. Já alguém disse que os Beach Boys são um pouco de Chuck Berry à mistura com Phil Spector. Outros disseram que o mesmo Chuck Berry influenciou os Sonic Youth na medida em que estes foram influenciados pelos Velvet Underground e estes por Chuck Berry. Enfim, todos os caminhos vão dar à época que viu amanhecer a cultura discográfica.

18.7.04

Contextualização histórica e notas (I)


A facilidade que hoje se tem em frequentar bares e discotecas, sair à noite e falar com quem se quer quando se quer quase faz esquecer a dificuldade que era um simples namoro naquela época. Fechada e obtusa, a sociedade de então fazia com que cada momento fora dos olhares atentos das «autoridades» parentais fosse encarada como uma vitória pessoal e sentimental significativa. A evidência disso mesmo na vida de uma mulher era, facilmente se percebe, mais imediata. Dito de outro modo: os tempos eram difíceis. É verdade que este cenário se alterou mais significativamente durante os anos 60, com o clima que se gerou durante e após a guerra do Vietname e a vontade das massas em trocar a guerra pelo amor. Foi assim, de resto, que começaram os grandes festivais de música. Mas foi Elvis, na década anterior, que deu um passo de gigante rumo ao quebrar de muitos desses hábitos, pouco entendidos nos dias de hoje. Exemplo flagrante destas transformações poderá ser dado pela histórica actuação de Presley no programa de Milton Bearle, em 1956. A televisão era um meio novo, veículo dos valores tradicionais da família, até então pouco explorada e ainda muito inconsciente da sua real capacidade junto dos lares norte-americanos. Elvis tinha um estilo novo. Dançava mais do que aquilo que os olhares da época permitiam e ainda por cima vestia-se e cantava como os negros... Foi, durante os dias seguintes a essa actuação, um «alvo a abater» por parte da crítica de então... Ele, porém, havia de voltar pouco depois à televisão, para participar no programa de Steve Allen e cantar mais uma vez Hound Dog. Fê-lo com smoking e com a câmara apontada apenas da cintura para cima, não fosse a coisa “dar para o torto”... Tratou-se de uma das mais caricatas manifestações de moralismo à velha americana. Mas Elvis ia conquistando a juventude de então, que se revia naquela nova forma de dançar e que rapidamente adoptou nova pose, vestimenta e penteado. A sociedade americana mudava... e o epíteto de Rei resultou de uma eleição livre e evidente, amplificada ainda mais por quem, ironicamente, procurava elementos para o condenar. Uma geração inteira, que há muito suspirava e desejava uma liberdade que tardava em chegar, tinha finalmente um representante à altura. (continua)


Ponto de partida

Os anos 50 são o berço da cultura popular de toda a segunda metade do séc. XX. É por isso estranho que o desconhecimento generalizado desta época – mesmo por parte daqueles que se encontram dentro do jornalismo musical – se faça sentir. Os nomes são, na sua generalidade, facilmente reconhecíveis, mas a música – convém não esquecer que o acto da música é a música em si – é pouco conhecida. A descoberta daquela época faz-se hoje essencialmente através de compilações, visto que os registos originais são praticamente impossíveis de encontrar e estão guardados nas prateleiras dos coleccionadores mais afincados. Contudo, nos posts que se seguem serão analisados os discos tal qual surgiram à luz da sua época, evitando (sempre que possível) as compilações. Acredito ser assim mais fácil ter uma noção do encadear dos acontecimentos que conduziram, logo de seguida, à década do amor e dos químicos alucinatórios.
Esta viagem passará, invariavelmente e em grande parte, pelo eixo anglo-saxónico, dado que era o epicentro de grande parte da música editada. Apesar disso, será dada a importância devida a outros países que, embora menos importantes, legaram igualmente a sua dose de cantores essenciais. Portugal incluído.
Outro aspecto importante é o facto de o jazz não figurar neste blog. Acontece que este género mereceria, por si só, um estudo exaustivo que fizesse jus à sua extensão e grandeza. Por não possuir os conhecimentos necessários e por achar que outras áreas necessitavam, aqui, de maior destaque, optei por deixar para outros essa tarefa. Até porque a informação disponível é mais que abundante.
O que se segue é, portanto, um guia incompleto mas aberto. Para que outros possam complementar à sua maneira ou descobrir à sua medida a alvorada da cultura discográfica.